segunda-feira, 16 de março de 2026

ESPERO QUE CHOVA, AMANHÃ

Espero que chova, amanhã.

Que o céu se encha de nuvens densas e negras a descarregar bátegas sobre nós.

Bem sei que sou o único estranho mortal que deseja que amanhã, sábado, chova em Portugal, mas espero que compreendam.


Quero que chova caprichosamente quando nos soltarmos dos braços

e acabar o teu sabor na minha boca, amanhã sábado; quando o toque das tuas mãos esguias deixar o meu corpo abandonado e eu sentir a fugir o cheiro dos teus cabelos rebeldes, molhados, a descolar-se, definitivamente, de mim;

quando perder de vista o carro que te rouba a mim.


Só a chuva, amanhã sábado, poderá ajudar a disfarçar a minha vergonha de chorar por te perder, por um dia.    



                                                                            Nick Cave



Ele insultou-a

humilhou-a,

deitou-lhe um rio por cima.


Mas ela  nadou, não vergou e ripostou

com um afluente do seu insulto,

da sua humilhação.


Foram então os dois na  torrente das palavras

até ele encalhar a gritar indignado:

NÃO À REAÇÃO! NÃO À REAÇÃO! NÃO À REAÇÃO!




         Klauss Schulze & Lisa Gerrard